blog

COMO CIDADES INTELIGENTES IRÃO REVOLUCIONAR SUA VIDA

A cidade conectada

. Quando eu era mais novo, adorava assistir aqueles programas de Mega Construções ou previsões sobre prédios futuristas e carros conectados, no Discovery Channel. Era incrível ver como aqueles Designers, Arquitetos e Engenheiros eram criativos e visionários. E como parecia que tudo fazia sentido, do ponto de vista de usabilidade, qualidade de vida e conectividade. Como se seu carro, celular e desktop no trabalho fossem um único computador e a transição entre eles fosse instantânea e automática. Algumas dessas coisas já estão ao alcance da mão, mas essa cidade conectada ainda parece distante. Será mesmo? Há alguns anos, a grande maioria da raça humana ainda vivia em ambientes rurais, distantes do centros urbanos. Isso mudou bastante a partir dos anos 2000, principalmente nos países em desenvolvimento da Ásia e América Latina. Mais da metade da humanidade já vive em cidades e em 2050, 6 bilhões de nós viverão em centros urbanos. E não estou falando de grandes metrópoles, mas cidades médias, com até 500 mil habitantes. Com isso, é óbvio que surgem problemas nunca antes enfrentados. Crime, poluição, altos custos de vida, explosões populacionais e populações cada vez mais velhas. As necessidades de investimentos em infraestrutura chegarão a 10 trilhões de dólares em 2025. Problemas demais? Cada cidade irá gerar quantidades imensas de dados, informações e medições. É exatamente essa a solução. .

Quantidades imensas de dados

. Uma cidade é um sistema complexo, gerenciado e organizado por milhares de pessoas, computadores e dados. Esses dados servem, basicamente, para que a tomada de decisão seja o mais acurada possível, dando poder aos governantes e propiciando melhorias na qualidade de vida dos cidadãos. Por conta disso, é fácil ver que dados não são úteis para cidades, e sim para pessoas. Informação significa transparência, gestão, e é claro, negócios. Muitos governos já estão dispondo informações relevantes, por transparência. O portal Dados.gov.br tem uma cartilha de Dados Abertos, o que facilita o acesso para qualquer órgão público interessado. De fato, encontrar dados é fácil. Mas nem sempre eles são claros. E muito menos bem organizados. O mais comum é achar relatórios em PDF. Serve só para humanos lerem. E não máquinas. Os governos costumam ter dificuldade em manter o ritmo de inovações tecnológicas. Não só isso, mas eles são divididos em Departamentos, Secretarias e outras células, cada uma com suas próprias bases de dados e times de TI, que nem sempre conversam e mantem padrões semelhantes. O que fazer com tantos dados, ainda mais no estado desorganizado em que estão? .

O poder dos cidadãos

. O cidadão quer ter um problema resolvido em sua cidade, porque isso atrapalha sua vida. Para ele, tanto faz se é o governo ou qualquer outra pessoa que o resolve. Dados organizados têm o potencial de capturar toda a capacidade de gerir do governo e, através da iniciativa das pessoas, colocar isso em movimento. Para isso, basta desenvolvedores e empreendedores! Vendo por esse lado, parece óbvio que o governo não está no centro de nada. As pessoas estão. As pessoas têm problemas. E as pessoas podem resolvê-los. Basta que os dados que baseiam certas decisões administrativas estejam disponíveis. E aí a qualidade de vida pode ser transformada. E a vida na cidade pode ser inovada pelos seus cidadãos. .

Os olhos e ouvidos

. Cada cidadão é o melhor sensor que uma cidade poderia comprar. Com um smartphone, muito pode ser resolvido. Em Helsinki, na Noruega, foi implementada uma API de Reporte de Problemas da cidade, colocando os cidadãos como ativo na melhoria e conserto de bens públicos. Afinal, a administração pública não tem como saber que algo está errado se ninguém falar nada. .

Olá, inovação

. Não apenas receber serviços, cada cidadão também tem o potencial de criá-los. As aplicações que devem usar APIs como essa na Noruega são feitas pelas pessoas, que podem criar algo que os governos não conseguem. Se houver mercado para criação de uma aplicação, os cidadãos irão juntar os meios fornecidos pelo governo com as necessidades e gerar algo produtivo (e rentável) para toda a cidade. .

Isso é apenas o começo

. Parece bem simples! O que mais dá para fazer com essas informações? Tudo que sua mente criativa imaginar. Podemos melhorar qualquer um dos seguintes sistemas públicos: .
  • Transporte público;
  • Comunicação;
  • Água e esgoto;
  • Energia;
  • Segurança;
  • Transporte/movimentação/estacionamento;
  • Paisagismo;
  • Gerenciamento de construções civis;
  • Controle de intempéries;
  • Fronteiras e jurisdição;
  • Meio ambiente;
  • Turismo;
  • Etc.
. Porém , cidades são ambientes pouco previsíveis. APIs que contenham dados relacionados a qualquer setor público de uma cidade tem a capacidade de revolucionar a tomada de decisão. Processos de big data e inteligência artificial também tem lugar nesse tipo de ambiente. Essa Cidade Inteligente, criada por e para seus cidadãos, faz todo o sentido, pois constrói processos participativos (evitando decisões impopulares e inúteis dos governantes) e ainda são economicamente viáveis, pois geram negócios em forma de inovação, com vantagens públicas para todos. Lindo, não? Me lembra até aqueles programas que eu via no Discovery. Saudades. A diferença é que aqueles programas eram pura imaginação. O que eu estou falando é real, e está acontecendo agora! Cidades europeias e norte-americanas já tratam o assunto como cotidiano. Há projetos incríveis acontecendo e algumas pessoas já estão começando a ganhar cifras volumosas nesse novo setor. .

Onde estão as cidades inteligentes

. Em termos de desenvolvimento e inovação, as cidades europeias e norte-americanas estão muito a frente. Em muitas coisas, não somente no quesito Cidade Inteligente. Isso não é nada impressionante. Estamos no Brasil, sabemos que o processo de entrada de novas tendências e tecnologias costuma ser lento. E as tecnologias no setor público não são exceção. Enquanto pesquisava para escrever esse artigo, descobri que a Casa Branca tem uma conta no Github e inclusive tem um tutorial muito bom e simples para design de APIs. Também descobri essa outra conta chamada unitedstates, com APIs públicas para diversos dados e ferramentas muito úteis. No Brasil, temos projetos menores, mas bem interessantes, como o já citado Dados.Gov.Br ou a ONGTransparência Brasil. Coloquei outros links bem legais na seção de referências, no fim do post. Voltando às cidades inteligentes, o fato é que os projetos mais avançados estão mesmo na Europa, com destaque para Barcelona, e nas grandes cidades norte-americanas, como Nova York e Filadélfia. Dois projetos incríveis são o iCity (troca de conhecimento entre cidades) e o Open-DAI (gerenciamento dos dados abertos). Ambos foram fundados e são incentivados pela própria União Europeia. Mas não para por aí. A UE tem uma organização voltada direta e objetivamente para cidades inteligentes (European Innovation Partnership on Smart Cities and Communities), que vai oferecer recursos para outras iniciativas em um total de 365 milhões de euros, até o final de 2015. Outra forma de promover o assunto são os prêmios e eventos. Já existem vários, principalmente os eventos organizados pela IEEE (como a Primeira Conferência Internacional de Cidades Inteligentes), além do Smart City Expo e do Intelligent Communities. .

Nem tudo são flores

. Até agora no artigo, pareceu que é só uma questão de tempo para que aqueles problemas de crime, trânsito e poluição sejam resolvidos para sempre (pelo menos na Europa). Não é bem assim. O conceito de Cidade Inteligente é novo. Não há uma definição clara de onde começa uma cidade inteligente. A prefeitura de São Paulo tem uma conta no Github. Isso vale? Há muitas iniciativas paralelas tentando criar meios de comunicação entre cidades, eventos sobre o assunto e modelos de criação e gerenciamento de cidades inteligentes. Algumas grandes empresas estão tentando tocar esses barcos, cada uma do seu jeito (como a Amazon e a Schneider Electric). O ProgrammableWeb já dá dicas de como ganhar dinheiro com isso. Há os que estão dando um viés bem mais científico (como os engenheiros do MIT estão fazendo com prédios inteligentes, por exemplo). Também tem os estudiosos sociais, considerando, por exemplo, que uma cidade tem vários tipos de inteligência, partindo da individual, passando pela coletiva e chegando à artificial. A verdade é que estamos falando de uma questão de evolução e desenvolvimento da raça humana. Não é possível prever como as cidades serão daqui a anos (sim, Discovery exagerava naqueles programas =/ ). Mas é certo que o fator de gerenciamento de informação gerada pelas cidades eaproveitada pelos cidadãos será um diferencial. E também que a colaboração entre cidades promete reduzir enormemente os desafios. .

E quais são mesmo os desafios?

. Por mais que o futuro pareça muito legal na teoria, a realidade sempre aparece para mostrar todos os problemas. Mas é certo que fazer algo sozinho é mais difícil e trabalhoso do que o mesmo serviço em equipe. Com as cidades é a mesma coisa, e é por isso que há tantas iniciativas querendo unificar ou uniformizar projetos entre cidades inteligentes. As necessidades das cidades são muito semelhantes, o aumento do foco de funcionários administrativos das cidades em modernizá-las também promove o mesmo em outras cidades e isso torna o processo de convencimento para políticas de tecnologias com deputados e vereadores bem mais fácil. Entra aí outro projeto europeu chamado CitySDK, que atua em oito cidades. O case de Helsinki, que eu falei no começo do artigo, é deles. O princípio norteador é simples: conforme uma cidade cresce, seus problemas crescem, e as soluções devem ser maiores ainda. Aquela aplicação criada, que resolve certo problema da cidade X, dificilmente poderia ser reaproveitada (a nível de código) para a cidade Y, pois seriam outras APIs, outros protocolos, outros padrões. Um SDK unificador é a resposta. Obs: caso você não saiba o que é um SDK, confira esse post do nosso blog. O CitySDK tem três focos: turismo, mobilidade e participação/colaboração. Há diversos outros cases de sucesso legais, mas vale a pena falar de Barcelona novamente. Lá, foi criado o CityMart, que promove a submissão de projetos de negócios que resolvam problemas públicos. Isso se contrapõe à abordagem tomada pelas demais cidades, em que uma ideia da solução para determinado problema é definida, antes mesmo de encontrar um fornecedor. Bem legal a ideia, né? A uniformização das cidades também é vantajosa para desenvolvedores: .
  • Acesso a dados padronizados de várias cidades;
  • Podem estender suas ideias para outras cidades (que também usem CitySDK), com praticamente nenhum trabalho extra;
  • Acesso a populações e mercados bem maiores (30 milhões de cidadãos europeus);
  • Participam de comunidades de devs bem maiores.
. Outro problema são as próprias APIs expostas. Mesmo em cidades pioneiras como Nova York e Barcelona, há erros simples, do ponto de vista da exposição de APIs. Talvez seja útil que eles leiamnossa série de posts Blocos de Construção para exposição de APIs. Alguns dos erros (bem básicos) nessas APIs: .
  • Documentações não interativas (PDFs);
  • Documentações defasadas;
  • APIs e meios de comunicação abandonados por meses;
  • Ecossistema de APIs descentralizados (separados nas células de secretarias e departamentos, que não se comunicam bem);
  • Termos de uso inconsistentes e contraditórios;
  • Falta de Roadmaps de melhorias;
  • Falta de galerias/marketplaces de apps.
. Isso ocorre porque as cidades estão numa espécie de transição de seus projetos de dados abertos(como temos hoje no Brasil) para estratégias de API (que não temos ainda). Apesar de ambos lidarem com dados públicos, eles têm diferenças cruciais, principalmente no que diz respeito à leitura e ao tratamento desses dados por máquinas e nas potenciais aplicações, o que compromete a inovação. ———- Veja a matéria completa: ” COMO CIDADES INTELIGENTES IRÃO REVOLUCIONAR SUA VIDA  ”, Sensedia